quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Imprensa


Jornal Praiano - Domingo, 31 de agosto de 1996
Segundo Caderno

Rock na Praia
O estrondoso sucesso na volta da Banda LP não foi novidade para ninguém. Desde o término do tratamento do seu baixista, há um ano, a banda vem retomando seu espaço nas paradas musicais e conquistando novos admiradores. Ontem à noite consolidaram sua volta com um grande show na praia programado pela Prefeitura da cidade.
A apresentação deveria começar às oito horas da noite, mas teve início por volta das nove horas. Mesmo assim os fãs ansiosos aguardaram pelo grupo que para compensar tocou todas suas músicas de sucesso e todas as canções de seu novo CD.
A voz admirável de Roxanne hipnotizou os espectadores por quase duas horas ininterruptas. A energia da cantora contagiou totalmente o público estimado em duzentas mil pessoas, que cantaram junto com ela os sucessos antigos e se calaram para ouvir a nova música da Banda: “Felicidade não existe”.

Felicidade não Existe
Eu digo a você
Pra que chorar e se enlouquecer
Pra que duvidar e temer
Felicidade não existe
Apenas a dor de amar você
Minha vida fácil
Meu olhar ardente e meu amor insolente
Nunca é o suficiente
Felicidade não existe
Sendo evitado por você
Amanhã diz você
E hoje eu desejo ansioso, só você
No futuro eu não sei
Felicidade não existe
Preciso esquecer você

sábado, 11 de setembro de 2010

Durante a Adolescência

 

Literalmente eu cresci empunhando o violino. A conduta do meu pai me manteve ainda mais introspectiva, ampliando minha dedicação à música. A revolta e rebeldia comuns aos adolescentes eram voltadas para as notas musicais a soarem mais graves e o tempo mais curto. A suavidade não mais se fazia presente em meu repertório.



Contudo a minha melodia interior estava determinada a sobrepujar as crises inerentes a faixa etária e garantiu meu lugar na orquestra de câmara da escola, ao ingressar no ensino médio. A minha excelência foi comprovada rapidamente, em menos de um mês ensaiando junto aos colegas e ao maestro, tornei-me a estrela do grupo.



Ao conquistar um lugar de destaque, acreditava ter a oportunidade de finalmente cativar alguma amizade. Entretanto minha natureza reservada, junto ao medo de ser rejeitada manteve os companheiros de orquestra à distância. Na época, ainda imaginava ser minha tez incomum a afastá-los, não notava a minha tendência ao isolamento.



No meu primeiro ano, o segundo violinista do nosso quarteto de cordas me pediu ajuda com a partitura nova. Fiquei feliz ao ser interpelada e principalmente deslumbrada com a possibilidade de fazer um amigo. Acredito não ter demonstrado minha euforia interior, apenas concordei com um meneio de cabeça. Ele sugeriu estudarmos em minha casa e em minha inocência assenti prontamente.



Embora a fachada continuasse a mesma, com os tijolos desgastados pelo tempo, a parte interna estava bem cuidada. As paredes ganharam vida com um listrado em tons ocres, e os novos rodapés de madeira escura davam uma aparência mais agradável ao nosso lar. Não havia motivos para me envergonhar ao invitá-lo, embora muito pequeno e simples, o ambiente era aconchegante e aprazível.



Ao entrarmos, deixamos nossas bolsas em cima da escrivaninha e o levei até meu novo instrumento. Eu tinha muito orgulho dele. Era usado, no entanto seu estado de conservação era excelente e soava com perfeição. Eu praticamente não tive tempo para segurar o violino entre as minhas mãos.



O jovem logo notou a ausência de adultos para nos supervisionar. Colocou o violino delicadamente em seu suporte; todavia eu não mereci a mesma deferência. Sem nenhum aviso me puxou de encontro ao seu corpo, envolvendo meus braços com força e brusquidão. A princípio fiquei atônita com a ousadia e totalmente sem ação.



Passado o susto inicial, procurei deter seus avanços em vão. Palavras sem nexo saiam de sua boca e meus gritos de horror escapavam em alto som. Meu pai voltava do teatro naquele exato momento, foi atraído para dentro de casa pelos meus brados e entrou correndo. Eu não tive a oportunidade de observar como tirou o rapaz de cima de mim. As lágrimas toldavam meus olhos e escorriam por minhas faces.



Em pouco tempo, o jovem sumiu do meu horizonte e papai me abraçou. Chorei copiosamente em seu ombro, envolvida pelo seu gesto afetuoso e palavras de consolo. Eu queria apenas fazer um amigo, não esperava por aquele tipo de atenção. Naquela tarde meu pai explicou de forma sucinta e grave sobre os pensamentos dos rapazes daquela idade, em relação as garotas, estarem voltados apenas para esse tipo de coisa.



O dia seguinte na escola foi ainda pior. As meninas viravam a cara quando eu passava e os rapazes olhavam para mim de forma estranha e um tanto ameaçadora. Tive um real medo de me manter naqueles corredores. Corri para a sala de aula, esperando desfrutar da companhia mais tolerante da professora de matemática.



Ao entrar observei uma cena no mínimo constrangedora. O mesmo rapaz, da tarde anterior, beijava a menina mais popular da minha turma. Após este episódio, me mantive ainda mais retraída e distante. Foi um fator determinante para me excluir do convívio com os colegas de escola.



Quase toda tarde, ao voltar das aulas, a lata de lixo estava tombada a frente de casa. Eu não mais deixava esse tipo de tratamento me incomodar. Levantava a lata, colocava o lixo de volta em seu interior. Entrava em casa disposta a esquecer tudo, me dedicando à música e aos estudos.



Não queria de forma alguma preocupar o meu pai e não comentava sobre o assunto quando ele chegava. Se papai desconfiava do quanto eu era rechaçada pelos colegas de escola, nunca falou absolutamente nada comigo. Estranhava apenas o meu súbito desvelo para com os estudos.



Esta diligência, junto ao meu dom para a música, acabou despertando a atenção da única universidade em nossa cidade. Eu ainda estava no segundo ano quando diretor da Escola de Música ouviu um recital do nosso quarteto de cordas e me ofereceu uma bolsa de estudos para o concorrido curso de Música, cuja excelência é reconhecida em todo país.



Eu contava apenas quinze anos de idade, mesmo tendo dificuldade de relacionamento com os colegas, preferi completar meus estudos. Não acreditava ser capaz de seguir um curso concorrido da Universidade, sem concluir o ensino médio. O diretor me mandou uma carta cordial após minha sincera recusa. Em sua missiva aceitava minha opinião e ao mesmo tempo mantinha sua proposta em aberto. Meu futuro estaria garantido enquanto ele fosse o diretor.



Nessa época, papai se sobressaia na Companhia de Balé. Em todas as apresentações, havia um solo ou um dueto do qual participava. Apesar de estar distante do seu sonho de ser o primeiro bailarino, era constantemente ovacionado pela plateia ao se apresentar sozinho e seu séquito de admiradoras crescia exponencialmente.



Eu ainda frequentava os bastidores do teatro nos finais de semana. Comtemplava o quanto sua dança se aprimorou desde a sua entrada para o coro. Seu corpo era um instrumento afinado com perfeição, reproduzia o ritmo e os compassos da música com primor. Eu continuava a esconder-me em um canto, onde não pudesse atrapalhar a movimentação por trás dos palcos e observar detalhadamente cada movimento do meu pai.



As manhãs de domingo se tornaram um grande alento para mim. Ouvir uma sinfonia nova a cada mês, assim como os novos concertos me incentivava a querer aprender cada um deles. Após as apresentações eu corria até em casa para tocar em meu violino as notas apreendidas naquelas manhãs. E a noite voltava ao Teatro para ver papai dançar.



Reynaldo, um jovem moreno de olhos cinzentos, era um dos novos estudantes da Universidade contratados para fazer parte do grupo de apoio no teatro e o único amigo do sexo masculino do meu pai. A seu pedido, ele sempre procurava zelar pelo meu bem-estar, apesar da minha insistência em ficar escondida. Respeitava minhas maneiras retraídas e o meu silêncio. Provavelmente ele conseguia alcançar a minha necessidade de apreciar a dança e a música sem ser perturbada.



Os solos de papai e seu pequeno sucesso nas apresentações aumentaram seu salário. Nosso lar estava a cada dia mais confortável e aconchegante com os novos móveis a compor o ambiente. Havia um sofá maior na sala, onde ele pretendia dormir. Desejava deixar o quarto só para mim, afinal não achava correto, uma adolescente dormir com o pai.



Todavia, eu gostava de tê-lo por perto. Ultimamente ele ficava pouco em casa e o queria próximo, pelo menos na hora de dormir. O sofá era muito desconfortável e os meses de inverno eram prolongados em nossa cidade. O frio intenso era uma desculpa eficiente para nós dois continuarmos a dividir a mesma cama.



Ele recebia visita de suas amigas em nossa casa, contudo evitava passar de beijos e abraços, pelo menos comigo no mesmo cômodo. Entretanto, mantinha encontros fortuitos na cidade. Normalmente eu sabia, pois ao interrogá-lo sobre aonde ia ele desviava o olhar e falava: “Por aí...” Evitava comentar sobre as suas escapadas, tentando manter o mínimo de discrição.



Quando não estava “por aí”, papai me incentivava a dançar e me mostrava novos passos. Eu me exercitava na barra por pelo menos uma hora diária, buscando na dança uma forma de lutar contra os quilos a mais, os quais engrossavam minha cintura, quadris e coxas.



Eu me acostumei com a ideia de não ser a única pessoa na vida do meu pai, por que no final do dia ou da noite, ele sempre voltava para a casa. Após o episódio com o rapaz da orquestra, eu me afastei completamente dos colegas da escola e sempre tive receio de uma aproximação maior. Embora desejasse muito ter um namorado e agir como toda garota da minha idade, o medo sobrepujava os desejos naturais da adolescência.



Acabei por me resignar e distanciar ainda mais das pessoas, minha introspecção e retraimento eram meus verdadeiros algozes. Papai se tornou o meu esteio, apenas sua existência me conectava a minha humanidade. Somente ele tinha o poder de me manter consciente da necessidade de me relacionar.



A rebeldia em minha música adolescente foi cedendo pouco a pouco. O desejo de expressar todo o meu interior suplantava as erupções hormonais características da minha idade. Voltei a executar minha canção interna com maior determinação e total dedicação.



A minha persistência foi recompensada. A música passou a fluir de dentro de mim para as notas da composição. O som do meu violino atingiu a perfeição da minha melodia interior, eu me sentia completamente inspirada e realizada ao tocar. A sensação é de estar sob influência dos anjos, iluminada pelos céus e aclamada por um grande público.



Passei a me desligar totalmente do mundo exterior e outras músicas surgiam dentro de mim. A primeira canção era apenas parte de um concerto completo. A ambição premente de expressá-lo era a minha vida. Alienava-me completamente de tudo a minha volta e devotei-me a esta busca incessante de realização através da música.



Minha profunda entrega e conexão com a música me deixava cada dia mais absorta dos acontecimentos diários. Entretanto eu já havia imposto objetivos claros para mim. Iria estudar música na Universidade, um dia conseguiria comunicar-me com o mundo através do som do meu violino. Este objetivo e o amor incondicional que nutria por meu pai mantinham meu ser conectado com este mundo.



Quanto maior era minha alienação, maior era o distanciamento de papai. Eu não percebi a princípio. No entanto, as noites as quais dormia sozinha eram cada vez mais frequentes. Mesmo quando o encontrava ao meu lado pela manhã, nem sempre ele acordava a tempo de preparar minhas panquecas como era seu costume, nos últimos dezesseis anos.



Eu realmente não percebia a minha importância para o meu pai. Eu me retirava da sua vida e ele procurava consolo nos braços de suas inúmeras admiradoras. De fato, ele nunca namorou nenhuma a sério. Ele era tão solitário quanto eu mesma e o meu distanciamento também o afetava profundamente.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Imprensa


Revista Caretas – Quarta-feira, 30 de outubro de 1991

Amor de Conto de Fadas
No último fim de semana, a roqueira Roxanne casou com um dos componentes de sua banda, em uma cerimônia privada. Nossa editora recebeu um convite para presenciar o casamento e publicar a história oficial deste caso de amor.
A cantora é filha do primeiro baixista da Banda LP, que morreu três anos antes deles emplacarem nas paradas de sucesso. Após sua morte, Roxanne foi morar com os componentes da banda de seu pai. Eles ainda buscavam um baixista para compor o grupo, quando a jovem agradecida pela acolhida assumiu a vaga temporariamente.
Sua voz não passou despercebida aos companheiros e Ricardo Fernandes que era o vocalista original, cedeu o microfone para a nova componente. A partir deste momento os fãs aumentaram e a fama do grupo cresceu, nascendo assim a formação atual da banda. Os três irmãos: Ricardo no baixo, Thiago na guitarra e Matheus na bateria foram a única família da cantora nos últimos anos.
Ricardo tem oito anos a mais que a jovem e se disse apaixonado por ela desde que era uma adolescente e frequentava com o pai o camarim. Roxanne disse nunca ter notado e sempre foi tratada com carinho e respeito por todos os rapazes.
Durante os anos de convivência com a roqueira, Ricardo conseguiu conquistar seu amor e após um romance rápido de três meses resolveram oficializar sua situação, para delírio de seus fãs.
O registro da cerimônia simples e emocionada não foi possível para nenhum fotógrafo da Imprensa. Contou com mais de cem convidados e após a celebração houve uma pequena comemoração. Os noivos receberam apenas os cumprimentos e logo após cortarem o bolo, partiram direto para o aeroporto. Escolheram uma Ilha paradisíaca do pacífico para a lua de mel e só voltam no ano novo, quando começam a gravar o novo disco.




Revista Caretas - Quarta, 20 de julho de 1994

Drogas e Rock’n Roll.
Roxanne se abre com a nossa reportagem sobre sua vida privada, contando segredos inimagináveis e até hoje não revelados ao público. “Meu pai morreu de overdose”, fala a cantora com lágrimas nos olhos, em um apelo público. Seu marido e companheiro de banda, Ricardo, foi surpreendido portando drogas “para uso próprio” como confessou a polícia no flagrante. Foi solto sob fiança e levado direto para uma clínica de recuperação, gerando uma grande polêmica na mídia. Seria a roqueira uma usuária?
Ela disse não para nossa pergunta revelando o quanto era doloroso lembrar da morte prematura do pai e este foi um dos principais motivos para evitar drogas. Está muito preocupada com a recuperação do marido, cancelando turnês pelo país e procurando ficar ao lado dele nesta fase difícil.
“Ricardo sempre foi muito sensível, mas nos últimos tempos não conseguia compor nem se concentrar mais no trabalho”. Declarou ao final da entrevista sem revelar se já sabia sobre ele ser usuário de drogas.

sábado, 4 de setembro de 2010

Minha Infância


A primeira coisa da qual me lembro é a nossa mudança para Colina Formosa. Eu era apenas uma garotinha quando nos estabelecemos definitivamente na cidade. Recordo-me da estufa com uma pequena horta, onde meu pai trabalhava e a qual fornecia o nosso sustento, enquanto ele não encontrava um emprego no mesmo horário da escola. Papai não gostava da ideia de me deixar sozinha com uma babá e nunca compreendi seus motivos para isso.




A pintura interna da casa estava descascando, amarelada e suja, nas paredes externas os tijolos aparentes estavam se deteriorando. Havia um espaço razoável na cozinha para comportar a barra de balé e o piso de madeira era apropriado para a dança. Local onde passávamos a maior parte do nosso tempo.



Com certeza estas últimas características especiais e o baixo valor do aluguel influenciaram na escolha do meu pai. Havia apenas um quarto, motivo pelo qual nos obrigava a compartilhar a mesma cama. Embora não fosse nenhum incômodo para mim, imagino que o fosse para ele.



O maior prazer do meu pai é a dança. Seu sonho é se tornar um grande bailarino. Mesmo sendo tão pequena, eu me culpava por atrapalhar seu projeto. Se ele não tivesse a mim para cuidar, poderia se dedicar mais ao balé e não precisaria manter sua excelência em uma sala apertada.



Quando comecei a andar ganhei minha primeira malha de balé, papai me incentivava a ficar "en dehors" para conquistar a primeira posição. Com muita dedicação aprendi os primeiros passos e passei a apreciar a dança. A experiência de buscar mover-me em consonância com o som existente dentro mim era extremamente agradável e estimulante.



Obviamente a minha verdadeira paixão sempre foi a música. Voltava da escola e terminava as minhas tarefas correndo para tocar meu violino e nem percebia o passar das horas. Muitas vezes não notava o ambiente escurecer com o cair da noite, pois mantinha meus olhos fechados ao tocar. Quando comecei aos quatro anos, eu mal arranhava algumas notas, no entanto observava a música fluir intensamente no meu interior.



Queria expressar o som do sussurrar do vento nas árvores, do rolar das folhas de outono, do rufar das asas das borboletas, do borbulhar e do gotejar da água na pia. Meus ouvidos sensíveis escutavam desde uma suave canção até uma sinfonia monumental em todos os movimentos da natureza, das pessoas e dos objetos.



A relação com meu pai era especial e havia muita cumplicidade entre nós, apesar de trocarmos raras palavras. Ele acordava bem cedo e fazia panquecas para o nosso desjejum. Após saciarmos a fome, me fazia cócegas até eu chorar de tanto rir. Ele sempre estava de bom humor e mantinha um sorriso adorável.



Papai é extremamente bonito, com seus olhos lilases exatamente iguais aos meus, a tez clara é vibrante e rosada. Sempre me perguntei o motivo de não ter o seu tom de pele. Seus cabelos pretos como os meus, cortados rentes à cabeça, eram fartos e emolduravam seu rosto másculo e belo com perfeição. Sem contar o corpo escultural, modelado pelas horas dedicadas a dança.



Quando chegava da escola, uma hora e meia antes do anoitecer, corria para estufa com a minha lição. Aproveitava o final da tarde e a luz do sol para fazer as tarefas, ao mesmo tempo apreciava a companhia do meu pai. Embora estivesse ocupado com a horta, sua presença era suficiente para me deixar feliz.



Eu não era uma menina popular na vizinhança e muito menos na escola. E sempre achei ser a minha aparência a deixar as pessoas desconfortáveis e a afastá-las, principalmente devido a minha palidez incomum. Dentro de mim havia a sensação de não me encaixar e acabava mantendo certa distância dos outros.



Ao voltar da escola, muitas vezes eu achava a lata de lixo caída na frente de casa. O significado disso era uma óbvia demonstração do quanto depreciavam os intrusos na vizinhança. Isso me deixava triste e magoada. Apreensão, dúvida e solidão assolavam a minha mente infantil. Existia em mim uma culpa infundada por ser diferente.



Então, eu me dedicava à música, liberava todos os meus sentimentos negativos tocando violino. A princípio as notas destoavam e iam de encontro a minha amargura; após acalentar meu coração, o som se tornava cada vez melhor. Eu voltava a ouvir o esboço da minha canção interior e me dedicava cada vez mais para tocá-la.



Meu pai só notava o avanço da hora quando o sol desaparecia no horizonte, quase duas horas após a minha chegada. Ao ver a lata de lixo caída no chão, sabia o ser desolado que encontraria dentro de casa. Limpava a sujeira da rua e entrava com a intenção de me alegrar.



Estacava a minha frente apreciando a minha música com desvelo. Ao pressentir sua proximidade abria os meus olhos e encontrava os seus carregados de expressão, sugerindo o quanto me amava e me estimulando a ser forte. Meu coração se aquecia com a admiração silenciosa do meu único e verdadeiro amigo.



Era o suficiente para me acalmar, deixar o violino de lado e encontrar conforto em seus braços. Meus soluços eram os únicos sons na sala, não era necessária palavra alguma, sua atenção e seu carinho eram o meu alento. Rapidamente eu me sentia envolvida por sua aura de proteção e afeto.



Em seguida, ele me levava até a escrivaninha e me ajudava com a lição. Normalmente eu era uma aluna dedicada, sempre fazia as tarefas sem necessitar de auxílio. Contudo, em minha desolação esquecia completamente de me concentrar nos estudos e precisava do incentivo extra do meu pai.



Após finalizarmos minha obrigação, papai me levava para jogar na única loja com fliperama da cidade. Hoje me pergunto como ele conseguia dinheiro para pagar as fichas, acredito que mantinha economias para minhas pequenas emergências. Não se preocupava com a hora de dormir, me levava para casa somente quando eu já estava sorrindo de orelha a orelha. Voltávamos pulando, correndo e rindo de mãos dadas.



Eu estava prestes a fazer onze anos, quando notei a preocupação do meu pai aumentar em relação ao nosso futuro. A estufa nos sustentava bem, mas não sobrava muito, eu crescia rápido e meu corpo começava a se transformar. Ele sabia sobre os desejos e necessidades de uma adolescente serem mais difíceis de realizar sem dinheiro no bolso. Contudo a minha principal preocupação era a compra de um novo violino, para acompanhar o meu crescimento.



Com a idade dele avançando, a possibilidade de seguir carreira como bailarino se esvaía. Havia um Teatro Municipal com uma pequena companhia de balé na cidade e acredito ser uns dos motivos a fazer meu pai escolher Colina Formosa para se estabelecer. Praticamente podia cuidar-me sozinha, por isso resolveu procurar o grupo e conquistou um lugar no coro. Os ensaios eram durante as minhas aulas. E os espetáculos eram apenas nos finais de semana.



Ele me levava para suas apresentações, embora fossem à noite, não terminavam muito tarde. Eu ficava na coxia apreciando cada passo do corpo de baile, entretanto, quando papai entrava no palco, meus olhos se prendiam em sua imagem. O movimento por trás das cortinas era intenso e me ignoravam. Eu escolhia um canto afastado e ali não atrapalhava ninguém, além de obter a melhor visão do meu pai dançando.



Amava aqueles momentos no Teatro, contudo o meu maior prazer era na manhã do primeiro domingo de cada mês, quando a pequena Orquestra Sinfônica da cidade apresentava uma nova sinfonia ou um novo concerto. Como papai era bailarino, eu podia ouvir tudo da coxia e apreciar a performance de cada instrumento e do concertista a se apresentar.



Naquela época a atitude do meu pai mudou. Ele sempre fora muito só e como eu era muito nova não sabia nada sobre as necessidades de um homem maduro. Nos intervalos dos espetáculos, notava sua súbita atenção para com o sexo oposto, os olhares, a tensão, os carinhos roubados. Embora inocente e ingênua, não tinha dúvidas quanto ao significado desse tipo de atenção e amizade.



De solitário e pacato agricultor, papai se tornou um belo bailarino cercado de mulheres. Não havia bailarina ou espectadora que não caísse de encantos por ele. Eu não tinha ideia da sua motivação para se modificar tanto e em tão pouco tempo. Mas eu sempre o via trocando pequenas carícias fortuitas nos intervalos dos espetáculos. E isso perdurou durante os anos seguintes.



Aos treze anos meu corpo desenvolveu formas mais femininas. Estava longe de ser uma criança e entendia melhor o relacionamento do meu pai com as mulheres. Ele nunca havia prometido nada a elas, contudo sempre havia uma em nossa porta e a sua procura. Sua beleza, junto a sua reserva o tornava ainda mais desejável aos olhos de suas “amigas”.



Esta fase foi muito complicada para mim, me tornar uma mocinha e perceber meu corpo mudar sem receber informações de uma mãe. Ver uma procissão de mulheres seguindo o papai e dividir sua atenção com elas, não foi realmente fácil. Vários conflitos internos gerados pela ebulição dos hormônios característica da adolescência, mesclados a sensação de estar sendo trocada. Tudo isso marcou muito o final da minha infância.